O ex-jogador Walter Casagrande está lançando pela Record a edição revista e atualizada do livro “Casagrande e seus demônios”, escrito com o jornalista Gilvan Ribeiro. O livro conta a vida de Casão, desde sua ascensão no futebol até sua luta contra a dependência química de drogas. Esta nova edição traz os últimos 10 anos da vida do ex-jogador, incluindo seu engajamento em questões sociais e políticas. Casagrande participou de mesa n’A Feira do Livro e conversou com o Livronews.
Livronews Casão, o que é que o livro e a leitura são pra você?
Casagrande Cara, a leitura, o teatro, o cinema, eles entraram no lugar da droga. Então, todas essas partes culturais… Eu trabalhei bastante pra que eu conseguisse trocar o que me destruía com alguma coisa que iria me construir. Eu leio de tudo, principalmente coisas de rock, eu gosto muito de banda de rock, tenho muitas biografias de músicos, de bandas, de histórias, enfim, gosto muito de cinema, tenho muitos livros de cinema. Então, eu procuro ler aquilo que realmente me dá prazer, não ler por ler. Eu procuro ler uma coisa que me dá prazer, porque essa substituição que eu fiz é por causa do prazer. Eu troquei aquele prazer falso da droga pelo prazer real de uma coisa cultural, sabe? Uma peça de teatro, um filme bacana e uma leitura legal. Então, eu procuro sempre ir ao encontro daquilo que me dá prazer, daquilo que eu gosto, né? Bandas de rock, shows, eu tenho vários livros, como “Os 50 melhores shows da história”, eu vou lá e leio e tal.
Livronews E o que é que o livro e a leitura podem ser pro Brasil?
Casagrande Cara, o Brasil teve um período muito longo… Ainda está tendo, né? Porque nós estamos lutando com um boicote geral, governamental da cultura, né? O afastamento, uma tentativa de afastamento geral do povo, da cultura. Um povo sem cultura é um povo que vai se tornar ignorante. E quem tem como objetivo que um povo seja ignorante é aquela pessoa que quer dominar. Uma ditadura tem esse objetivo. E qual é a arma mais forte para o desenvolvimento de um país? A educação, a leitura, os livros, saber da nossa história, saber da história do mundo, saber todo tipo de história. Então, a leitura, para o povo, principalmente o brasileiro, é uma questão de desenvolvimento de país. Desenvolvimento de povo, sabe? Uma construção de um futuro com um povo forte, culto, educado, para saber realmente a verdade do que se passa ao seu redor. Porque nós vivemos num mundo que tem muita gente, mas muita gente no Brasil que vive dentro de uma bolha, em torno de histórias completamente falsas, mentirosas, mas que eles acreditam plenamente, por falta de cultura.
Livronews Falando sobre o seu livro, agora. Como é que a vontade de escrever se encontra com a leitura que as pessoas podem fazer de sua vida?
Casagrande Então, meu livro tem um objetivo específico, né? Claro, conta da minha infância, conta as brincadeiras, as festas da minha adolescência, como eu virei jogador de futebol, no Corinthians, São Paulo, Seleção Brasileira, Copa, Europa e tudo mais. Mas o núcleo do livro, o meu objetivo principal, quando eu escrevi, era contar a minha história de autodestruição, a minha história de fundo do poço, a minha história de sofrimento dentro de uma internação, porque eu fiquei um ano internado numa luta pela recuperação. Contar a história de um período que eu fiquei patinando, depois que eu tive alta. E aí esse livro saiu em 2014. Foi ótimo para aquele momento. Naquele momento, o meu livro vendeu muito, muita gente leu e ajudou muitas pessoas pelo drama daquele livro. Agora, a vontade de relançar o livro é exatamente ao contrário. De 2014 para cá, foi acontecendo uma evolução, uma metamorfose, comigo, constante, diária, até eu chegar no período que eu estou hoje, aqui na Feira Literária do Pacaembu, 2024, dando uma entrevista para você, onde eu consigo ficar na minha casa sozinho, onde eu vou para o teatro, para o cinema, para um show e me sinto seguro comigo mesmo. E é esse o objetivo de relançar esse livro. É que agora as pessoas leiam a consequência positiva de toda aquela destruição que teve anteriormente. Eu não podia deixar a minha história parar naquele período. Aquele período legal. Eu tinha sido internado, já estava em um movimento de recuperação, de superação, mas eu ainda estava confuso, eu ainda estava patinando, eu ainda não estava legal 100%. Eu estou legal 100% agora. Então, as pessoas, as famílias, muita gente que tem esse problema e quer procurar uma ajuda, esse livro vai ajudar e vai alertar, porque vai mostrar a minha destruição, vai mostrar como eu estou hoje. Então, a luz que tem no fundo do túnel, o túnel é muito longo, mas se você chegar naquela luz lá, você vai viver sóbrio, vai viver lúcido, você vai ter liberdade, porque a droga tira essa liberdade. Você vira escravo. É ao contrário. Muita gente fala assim, pô, eu uso a droga para me libertar. Tudo bem, quem não vira dependente químico pode ter essa sensação. Quem vira dependente químico vira escravo, sabe? É como o Nando falou lá, eu não condeno nada, cada um faz o que quer da vida, mas tem que saber que o risco de virar um dependente químico existe, porque não é a droga, é a compulsão que você tem dentro de você. Aquela compulsão vai te levar para diversos lugares, para compra, para chocolate, para comida, para jogo de azar e para droga. Qualquer um desses exemplos que eu dei é dependência, é vício e o sofrimento é igual, a destruição é a mesma, tá? Então, é isso que eu quero alertar com esse relançamento desse livro.