Livro que reúne integrantes da nova geração de cronistas no país é lançado no Recife
Por Fábio Lucas

A palavra que traduz e expressa o momento. O diálogo com o cotidiano oferece humor, lirismo e realismo para o mundo, aproximando o jornalismo da literatura – e a literatura do jornalismo. Um gênero “sutil, discreto e poderoso”, na expressão de Cícero Belmar, gênero considerado tipicamente brasileiro, que vem se tornando mais valorizado pelo mercado editorial, na trilha pela qual já passaram nomes como Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Clarice Lispector, Machado de Assis e outros ícones da literatura brasileira.
Em publicação do Selo Mirada, foi lançado na sexta (6), no Recife, o livro “Crônica Popular Brasileira”, com crônicas assinadas por vinte autores e autoras de todo o país, e mais uma escritora alemã-brasileira. O gênero literário aparece como “um espaço onde o pessoal e o coletivo, o ordinário e o extraordinário se encontram”, de acordo com a divulgação da Mirada. A obra conta ainda com fotografias de Carlos Monteiro.
Alguns dos autores e autoras do livro, que teve sessão de autógrafos na Academia Pernambucana de Letras a partir das 5 da tarde, escreveram observações sobre esse gênero literário para o Livronews. Confira abaixo.
O que é a crônica

“É uma forma de eternizar um lugar, uma pessoa ou mesmo uma situação que vivemos e que nos marcou de alguma maneira. É uma espécie de homenagem algo, alguém, que o nosso coração elege como especial.” (Nely Barbosa)

“É um importante gênero literário que no Brasil ganhou notoriedade em jornais de grande circulação. O cronista é um poeta sem rimas, mas de arguto olhar poético (e crítico) voltado para a sociedade em que vive. (Quiercles Santana)

“A crônica é quase como um instante congelado do cotidiano que ganha vida nova ao ser escrita. É uma conversa íntima com o leitor, onde o banal se transforma em reflexão, o detalhe insignificante vira protagonista, e a simplicidade do momento se enche de significado.” (João Gomes da Silva)
A crônica para os escritores
“É um exercício de escrita que muitas vezes nasce do banal que a vida é (e do que poderia ser), que se apoia na realidade para ultrapassá-la, para criar atritos e possibilidades novas de olhar a realidade”. (Quiercles Santana)
Diálogo e formação de leitores

“A crônica é o gênero literário que dialoga diretamente com a realidade cultural, social e cotidiana do país. Ela ocupa espaços tanto para publicações periódicas, como jornais e revistas, quanto para coletâneas ou projetos individuais. No mercado editorial, as crônicas funcionam muitas vezes como uma ponte entre literatura e jornalismo. Acredito que o gênero contribui diretamente para o fomento de uma identidade literária nacional e na formação de novos leitores”. (Taciana Oliveira)
Crônica e mercado editorial

“A crônica empre foi vista como um gênero secundário, que não vendia. Era um gênero para ser consumido nas páginas de jornais. Mas hoje esse consumo não existe. Os jornais na forma física estão se acabando. Então, o mercado começou a pensar em formas de vendas desse produto. Agora, a crônica começa a ganhar prêmios, pois antes era alijada dessa seleção. Com isso, ganha status de produto que merece atenção”. (Cícero Belmar)
A crônica na perspectiva pessoal
“É um dos modos que encontrei para não deixar a loucura tomar conta de mim. Olho o mundo ao meu redor de mim, percebo a insanidade que grassa nele. E tento dentro de minhas possibilidades fazer jus, pelas palavras, à minha percepção”. (Quiercles Santana)
“É minha maneira de fotografar com as palavras, ou mesmo minha chance de comunicar de uma forma leve o que por vezes acho complexo e surpreendente”. (João Gomes da Silva)
“Eu não fazia crônicas até ser convidado para participar da revista eletrônica Rubem. Fui exercitando e aprendendo. Ainda sou aprendiz. Todo dia aprendo, pois a crônica é um gênero muito sutil, discreto e poderoso. A gente diz muita coisa através das crônicas, manda muitos recados. E é preciso ter muito cuidado com a forma com que se diz, pois há uma linha muito tênue entre o que é a crônica e o que é mera opinião”. (Cicero Belmar)
Participam da obra os cronistas: Adriano Espíndola Santos, Alessandro Caldeira, Anthony Almeida, Carlos Monteiro, Cícero Belmar, Davison Souza, Germana Accioly, João Gomes da Silva, Kátia Borges, Luiz Henrique Gurgel, Marcela Elisa, Mariana Ianelli, Nely da Costa Barbosa, Quiercles Santana, Raphael Cerqueira Silva, Renata Meffe, Sheila Carvalho, Taciana Oliveira, Valdocir Trevisan e Yvonne Miller.