A leitura da poesia, uma das formas mais ricas de expressão artística, deve ser incentivada também na infância, afinal ela é capaz de desenvolver a linguagem, a imaginação e a empatia nas crianças e adolescentes. Mas como aproximar os jovens leitores deste gênero?
Um dos principais obstáculos é a ideia de que a poesia é complexa ou distante da realidade. Para superar isso, é essencial escolher obras adequadas a cada faixa etária e contextualizar a leitura, mostrando como a poesia está presente em músicas, filmes e redes sociais. “Muitas vezes, o ensino tradicional focou demais na análise estrutural dos poemas, esquecendo que a primeira conexão com a poesia deve ser emocional”, afirma Paulo Rogerio Rodrigues de Souza, coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick.
Um dos maiores riscos no trabalho com poesia na escola, segundo o educador, é a seleção inadequada de textos. “Se pegarmos um poema muito abstrato ou distante da realidade do aluno, ele vai se afastar”, alerta Souza. Por isso, a indicação por faixa etária é crucial. Para crianças de 1 a 6 anos são sugeridos poemas com repetição, rimas e musicalidade, como “Trem de Ferro” (Manuel Bandeira), “Ou isto ou aquilo” (Cecília Meireles). No ensino fundamental (7 a 14 anos) as obras devem misturar humor e temas cotidianos, como “Esdrúxulas, graves e agudas” (José Paulo Paes) e “Tudo nela brilha e queima” (Ryane Leão). Já no ensino médio (15 a 18 anos) a ideia é apresentar poemas que dialoguem com questões existenciais e sociais, como “Alguma poesia” (Carlos Drummond) e “50 poemas macabros” (Vinicius de Moraes).
Na conversa com o Livronews, ele refletiu sobre pontos importantes para a aproximação dos jovens leitores do gênero poético, sem esquecer de destacar o papel da escola nesse processo.

Paulo Rogerio Rodrigues de Souza, coordenador
pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick
FORMANDO LEITORES
“A formação de leitores de poesia começa, antes de tudo, com uma exposição natural e prazerosa ao gênero. Para as crianças, esse contato inicial muitas vezes acontece por meio da oralidade, nas cantigas de roda, parlendas e rimas populares, estabelecendo um vínculo lúdico que pode ser ampliado com livros ilustrados, declamações e atividades criativas. Já para adolescentes e adultos, é fundamental desfazer a ideia de que a poesia é inacessível ou excessivamente complexa. Uma maneira eficaz de reacender o interesse pelo gênero é mostrar sua presença em diferentes plataformas, como canções, slams, cinema e rap, conectando a poesia ao cotidiano e às expressões culturais contemporâneas. Além disso, a escolha de autores atuais, que dialogam com temas próximos à realidade do leitor, fortalece a presença da poesia no presente e facilita a aproximação com o gênero, tornando-o mais envolvente e significativo.”
O PAPEL DA ESCOLA
“As escolas desempenham um papel essencial na valorização da poesia, indo além do seu estudo acadêmico como um gênero literário. Integrá-la ao cotidiano dos alunos de maneira dinâmica e envolvente é fundamental, e isso pode ser alcançado por meio de experiências significativas, como saraus, batalhas de poesia, escrita criativa e leituras compartilhadas. Sempre que possível, a participação em eventos literários que destaquem a poesia também contribui para aproximá-la dos estudantes. Além disso, é essencial que os professores transcendam as análises técnicas, incentivando a interpretação subjetiva e emocional dos textos, permitindo que cada aluno crie sua própria conexão com a poesia. A escolha de autores que dialoguem com a realidade dos estudantes também desempenha um papel fundamental, tornando a leitura mais acessível, instigante e significativa. Dessa forma, a poesia deixa de ser apenas um conteúdo escolar e se transforma em uma poderosa ferramenta de expressão, conexão e descoberta.”
INDICAÇÃO CORRETA
“A escolha do texto certo para cada fase da vida é essencial para despertar o interesse e a sensibilidade poética nos alunos. Para as crianças pequenas, poemas que exploram musicalidade, repetição e ludicidade criam um primeiro contato prazeroso com o gênero. No ensino fundamental, a poesia pode ser uma ferramenta poderosa para enriquecer o vocabulário, estimular a criatividade e desenvolver a percepção rítmica da linguagem. Já no ensino médio, a seleção deve equilibrar clássicos e poetas contemporâneos, trazendo temas que dialoguem com as vivências dos estudantes e ampliem sua compreensão do mundo.
FORMA DE APRESENTAÇÃO
“Além do conteúdo, a forma como a poesia é apresentada faz toda a diferença. Se a seleção for inadequada – seja por complexidade excessiva ou por falta de identificação com os temas –, o leitor pode se sentir distante do gênero. Por isso, é fundamental trazer uma contextualização significativa para a experiência poética, aproximando-a do universo do aluno e os alunos do contexto sócio-histórico do autor e da época. O segredo está em apresentar a poesia como uma vivência sensorial e emocional, permitindo que os estudantes apreciem o texto para além da análise estrutural, descobrindo nela um espaço de expressão, reflexão e encantamento.”
A POESIA DESAPARECEU?
“A poesia nunca desapareceu, mas sua forma de circulação mudou. No passado, ela estava fortemente ligada aos livros e à cultura impressa, enquanto hoje se adapta a novas plataformas, como as redes sociais e a oralidade do slam. O ensino tradicional também contribuiu para um certo distanciamento, ao abordar a poesia de maneira excessivamente técnica, muitas vezes deixando de lado o prazer da leitura. Além disso, o ritmo acelerado da vida moderna e a preferência por textos curtos e diretos influenciaram a forma como a poesia é consumida. No entanto, há um movimento crescente de resgate do gênero, tanto no meio digital quanto em eventos e manifestações culturais. Com seu poder único de síntese e emoção, a poesia sempre encontrará novas formas de se reinventar e dialogar com diferentes gerações.”