Para quem faz livro e
Para quem gosta de ler

Circuito da Poesia do Recife: Uma rota literária que dança ao som do Carnaval

No Recife, onde a cultura pulsa em cada rua, o Circuito da Poesia se destaca como uma iniciativa que une literatura, história e identidade. Criado para celebrar grandes nomes da poesia pernambucana, o projeto convida visitantes a explorar o Centro e o Recife Antigo por meio de estátuas que homenageiam escritores emblemáticos. E, durante o Carnaval, essa experiência ganha um ritmo especial, quando a cidade transforma versos em festa. Todas as estátuas são de autoria do escultor Demétrio Albuquerque.

Os Poetas que Guardam a Cidade

O circuito imortaliza ícones como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Solano Trindade e Mauro Mota, cujas obras dialogam profundamente com a alma pernambucana.

João Cabral de Melo Neto, na Rua da Aurora. Foto: Paulo Lopes/Prefeitura do Recife

Cada estátua ocupa um lugar simbólico: João Cabral, por exemplo, está na Rua da Aurora, às margens do Rio Capibaribe, homenageado por ele em Cão sem plumas. A região que também é palco do Galo da Madrugada, maior bloco de Carnaval do mundo, e, no período momesco, a estátua de Cabral presta vigília à tradicional escultura temporária do Galo Gigante, sobre a ponte Duarte Coelho.

A escolha dos locais não é aleatória. Manuel Bandeira, autor de “Evocação do Recife”, também observa o Rio Capibaribe na Rua da Aurora, cenário que inspirou versos como “Recife…/ cidade das pontes e dos sonhos!”. Enquanto isso, Mauro Mota, cronista das tradições locais, está na Praça do Sebo, refúgio dos intelectuais.

Carnaval no Centro: A Poesia em Movimento

Se o Circuito da Poesia convida à reflexão, o carnaval recifense coloca a cultura em ebulição. Na Rua da Aurora, onde a estátua de João Cabral parece ecoar a crueza de Morte e Vida Severina, milhares de foliões se aglomeram para shows e prévias, como a do bloco Bicho Maluco Beleza, capitaneado por Alceu Valença, que reuniu milhares de foliões no domingo passado (23). A força dos versos cabralinos, que retratam a luta e a resiliência do sertanejo, mistura-se ao suor e ao brilho da folia, lembrando que arte e vida são inseparáveis, no Nordeste.

Logo ao seu lado, na mesma Aurora, está o mestre Ariano Suassuna, paraibano que escolheu o Recife para ser seu lar.

Capiba, na Rua do Sol. Foto: Carlos Augusto/Prefeitura do Recife

Na Rua do Sol, que fica na margem oposta do Capibaribe, aos pés da Ponte Nova, com sua tradicional estrutura de metal, próximo à Casa da Cultura e à Avenida Guararapes, onde termina o Galo da Madrugada, o maior compositor de frevo que já existiu, Capiba, saúda os foliões.

Próximo ao Mercado da Boa Vista, no Largo da Santa Cruz, local de concentração do Bloco do Nada, na segunda à tarde, senta perenemente à mesa de bar, como cantou no sucesso Garçom, o pernambucano Reginaldo Rossi.

Clarice Lispector, na Praça Maciel Pinheiro. Foto: Paulo Lopes/Prefeitura do Recife

A poucos metros dali, na Praça Maciel Pinheiro, Clarice Lispector toma conta da casa onde passou sua infância. É ali a concentração do Escuta Levino, bloco que abre o carnaval, com a presença constante dos Guerreiros do Passo, na noite da quinta-feira.

Luiz Gonzaga, na Praça Visconde de Mauá. Foto: Paulo Lopes/Prefeitura do Recife

Na praça Visconde de Mauá, que fica entre a estação Central do metrô (por onde chegam milhares de foliões para brincar o Galo da Madrugada) e a Casa da Cultura, fica a estátua de um dos maiores pernambucanos – se bem que muito mais associado ao São João do que ao Carnaval. Luiz Gonzaga, símbolo do Nordeste, e eternizado como Rei do Baião, também é homenageado no Paço do Sertão, que abriga e reverencia parte de sua obra e indumentária.

Solano Trindade, no Pátio de São Pedro. Foto: Carlos Augusto/Prefeitura do Recife

Já Solano Trindade, poeta que celebrou a cultura negra e popular, vigia o Pátio de São Pedro, coração cultural onde repousam bares históricos e igrejas seculares. Também ali, fica sempre outro palco, com atrações tradicionais e contemporâneas que vão do carnavalesco ao pop. Grupos de maracatu e afoxé levam para as ruas ao seu redor a mesma energia que o poeta traduziu em palavras.

Carlos Pena Filho, na Praça do Diário. Foto: Carlos Augusto/Prefeitura do Recife

Na Praça do Diário (que tem este nome por ter sido endereço da sede do Diário de Pernambuco), que fica entre as avenidas Guararapes e Dantas Barreto, o jornalista e poeta Carlos Pena Filho, autor de “Soneto do Desmantelo Azul”.

Recife Antigo: Onde Passado e Presente se Encontram

O Marco Zero, ponto de partida do circuito, é também onde o carnaval recifense explode em sua pluralidade. É ali que fica o principal palco da cidade, e é ponto de concentração de blocos e de apresentações já tradicionais, como o encontro dos maracatus nação, na abertura do Carnaval, e dos maracatus de baque solto, na tarde da terça-feira. É também o lugar da estátua do percussionista Naná Vasconcelos, poeta dos ritmos.

Antônio Maria na Rua do Bom Jesus. Foto: Carlos Augusto/Prefeitura do Recife

Ali pertinho, na Rua do Bom Jesus, uma das mais belas e antigas ruas da cidade, Antônio Maria, autor de uma trilogia de frevos em homenagem à capital de Pernambuco que até hoje são executados e cantados em coro pelas multidões, observa o ir e vir de foliões e turistas, com seu olhar de cronista e a sensibilidade de compositor.

Ascenso Ferreira, no Cais da Alfândega. Foto: Carlos Augusto/Prefeitura do Recife

Ascenso Ferreira continua dizendo, com seus versos ritmicos inspirados no som da locomotiva, “vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar”, de seu repouso no Cais da Alfândega, lugar que hoje hospeda o palco do festival Rec-Beat, o mais alternativo do carnaval recifense.

Chico Science na Rua da Moeda. Foto: Inaldo Lins/Prefeitura do Recife

Ali pertinho, fica a Rua da Moeda, que durante o Carnaval abriga um palco dedicado ao samba. Em frente à casa que abrigou o bar Pina de Copacabana, de Roger de Renor, personagem imortalizado nos versos de Macô, está o malungo Chico Science, eternizado em pleno movimento (afinal, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”). De vida fugaz e morte precoce, uma saudade imensa para todos os pernambucanos.

Na entrada do Recife Antigo, na Avenida Marquês de Olinda, hoje transformada em passeio público, o Recife homenageia Miró da Muribeca, poeta que cantou o subúrbio, na cena da poesia marginal recifense.

Versos no Asfalto, Poesia no Pé

O Circuito da Poesia e o carnaval do Recife revelam uma mesma verdade: na cidade, a arte não está limitada aos museus. Ela habita as ruas, as pontes, os becos e os blocos. As estátuas dos poetas não são meros monumentos, mas guardiãs de uma cultura que se renova a cada ano, quando o frevo soa e o povo dança. Visitar o circuito é, também, preparar-se para entender por que o carnaval recifense é tão único — uma festa que carrega, em seus tambores, o eco das palavras de Bandeira, Cabral, Solano e tantos outros.


O Circuito da Poesia é gratuito e pode ser explorado o ano todo. Para conhecer os locais das estátuas e a biografia dos homenageados, visite o site oficial: circuitodapoesia.recife.pe.gov.br. E, se vier no Carnaval, deixe-se levar: no Recife, até a literatura sabe dançar.

Leia também

Agenda

Confira a programação de lançamentos, feiras, festivais, cursos, palestras e debates em todo o Brasil.

Newsletter

Assine nossa newsletter para ficar por dentro dos lançamentos de livros e novidades do mercado editorial.

Ao cadastrar em nossas newsletter, você concorda com nossa Política de Privacidade. Saiba mais

Colunistas

Veja os artigos mais recentes dos nossos colunistas.