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Fernando Monteiro do Restelo

Por Eduardo Cesar Maia

Despediu-se de tudo o escritor Fernando Monteiro. Lembro-me vividamente dele na antiga redação da Revista Continente. Vinha trazer pautas – muitas pautas! – sempre: ideias, críticas, planos, queixas, livros, lamentos, filmes… Tudo era domínio seu: tudo, claro, no campo da literatura, do cinema, da cultura; vivia nisso, vivia disso. Radicalmente apocalíptico, achava que o cinema de verdade tinha terminado na década de 1970 (com Antonioni); e a literatura, talvez, bem antes disso. O nosso tempo era para ele de penúria, de indigência intelectual, de chavões, de cópias baratas, de escritores de vitrine… Era uma espécie de Velho do Restelo que nos advertia, incansavelmente, de que havia algo de podre nos caminhos que os novos navegantes estavam tomando. – Mísera sorte! Estranha condição!

Acho que mais discordei do que concordei com Monteiro nas vezes em que conversamos, mas agora isso importa pouco. Para ele, a miséria era a atual; para mim, é a de sempre. Para trás não há paz, dizia o jagunço.

Lembro de uma crônica que escreveu sobre Byron Sarinho. Algo ali me chamou atenção. Havia uma beleza triste em tudo. Havia algo naquela admiração: o sentido de um fim num mundo marcado pelo sem-sentido. 

Numa entrevista, disse-me que o grande mal de boa parte da literatura contemporânea é não entender que arte é transfiguração, é imaginação, é fingimento. Todos querem acusar o real; explicar o real; matar a fantasia das possibilidades. Aqui, concordávamos sem reservas com o diagnóstico crítico de Kundera no ensaio sobre a “herança depreciada de Cervantes”. 

Tínhamos uma paixão compartilhada – a respeito da qual conversamos algumas vezes: o faroeste americano. Mas não se tratava, no caso dele, de uma paixão cega: era uma paixão crítica sobre um gênero que, bem apreciado, mostrava de forma complexa as entranhas dos gringos, em suas grandezas e misérias. Lamentava que nossos criadores, cineastas e escritores, não tivessem criado algo semelhante por aqui (matéria-prima “real” não faltaria).

Acho que li boa parte do que publicou. Gostei e desgostei: já não importa. Lembro com admiração de um relato que está no livro A cabeça no fundo do entulho, publicado pela editora Record em 1999. Refiro-me a “Viva o atlântico”, que trata, literariamente, sobre uma visita que o grande escritor gallego Camilo José Cela fez ao Recife em 1982. A novela é um exemplo admirável daquilo que ele entendia como arte literária enquanto transfiguração imaginativa da suposta “realidade” tangível do mundo. O Recife de então, as pessoas, a periferia, a Faculdade de Direito, o futuro prêmio Nobel espanhol: tudo ali aparece como literatura, tudo transfiguração. Eis uma lição para os escribas de nosso tempo, tão ocupados em denunciar, apontar, registrar, documentar, depor, confidenciar…

Dizia Cela – aquele personagem de Monteiro: “… de que la conciencia del escritor, en el fondo, no es sino el último latido de la condición de un hombre que pretende serlo por encima de todas las cosas y en el más amplio de los conceptos y de las acepciones. Porque el escritor, nadie lo olvide, no es más cosa, ni menos cosa, que un hombre”. Ninguém o esqueça, portanto.

E, já que mencionei o “Atlântico” de Monteiro, cruzemo-lo outra vez e retornemos à praia do Restelo, meio milênio atrás – onde e quando deblaterava outro personagem inventado: 

Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só d'experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!

Outras palavras do velho – Fernando bem o sabia – ainda reverberam em nossos dias: 

Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Fernando Monteiro era um Autor, e o A maiúsculo é proposital. Não nos enganemos: escritores temos em toda parte, quase como uma praga; o que nos falta são autores (os que aumentam o protocolo da língua e da imaginação, e não os que só digam o que queremos protocolarmente escutar). Coisa rara. A distinguir me paro, las voces de los ecos.

Foi-se Fernando. Despediu-se de tudo. O que podemos fazer, diante do seu ineludível silêncio? Talvez, e sem garantias, tentar dar algum sentido, pessoal e intransferível, às palavras que ele deixou. 


Eduardo Cesar Maia é crítico cultural e professor de Comunicação e Literatura na UFPE.

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