No livro “Gilberto e o Judaísmo: consonâncias e dissonâncias hebraicas no judeu de Apipucos”, Caesar Sobreira defende o famoso sociólogo pernambucano contra as acusações de antissemitismo
Por Jacques Ribemboim, da Academia Pernambucana de Letras
O novo livro de Caesar Sobreira, intitulado “Gilberto e o Judaísmo: consonâncias e dissonâncias hebraicas no judeu de Apipucos” (CEPE, 2025), defende o famoso sociólogo pernambucano contra as acusações de antissemitismo que há anos lhe tem sido imputada. Caesar, antropólogo e linguista erudito, é um desses incansáveis pensadores independentes que estão sempre à volta e merecem ser escutados, em tudo diferente daqueles que se escudam em panelinhas acadêmicas e tão-somente reverberam o pensamento exclusivo de seus círculos.
Aliás, Gilberto Freyre (1900-1987) também foi assim, irreverente e inovador. Um outsider que em sua juventude decidiu virar a mesa e viajar aos Estados Unidos para realizar seu mestrado na Universidade de Colúmbia. Ao retornar ao Recife, pôs-se a preparar os dois livros que lhe trariam fama, Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados & Mocambos (1936). O primeiro abordando o patriarcado rural açucareiro em seus estertores; o segundo, acerca do patriarcado urbano-burguês que se instalava no Recife.
A interação de seu universo infanto-juvenil vivido em Apipucos e a experiência acadêmica nos Estados Unidos moldaram-lhe o gênio criativo e permitiram uma completa independência em relação aos ditames que emanavam das universidades sudestinas. E se de um lado, essa independência contribuiu para seu sucesso internacional, conferindo-lhe sucesso internacional, por outro, viria a despertar toda uma ciumeira da Escola Paulista de Sociologia, que nunca lhe poupará as mais severas críticas[1].
A edição de Caesar chega, portanto, em boa hora, com algum atraso, talvez. Competentemente, o autor refuta, uma a uma, as alegações de antissemitismo atribuídas a Gilberto Freyre. E a tarefa não deve ter sido fácil. Afinal, como definir alguém que descreve os judeus com narizes de ave de rapina, sempre dispostos a faturar dinheiro à base da usura? A ideia do antissemitismo gilbertiano foi de tal maneira disseminada no país que, em certo momento, parecia incontornável. Em artigo publicado na Revista Ciência & Trópico de 2010, Caesar desnuda a inconsistência dos detratores, ao procurarem “isolar o texto, acoplando-o a outros fragmentos dispersos”, desprezando o caráter multifacetado, polifônico e policrômico da obra freyreana.
Nesse sentido, o livro recém-lançado surge como um divisor de águas. Em suas páginas, o autor elenca argumentos que circunstanciam ou atenuam cada passagem supostamente antijudaica, concluindo de forma clara e objetiva: “para ser antissemita é necessário odiar os judeus, algo que está fora de questão em se tratando de Gilberto”.
Neste ponto, vale salientar que Caesar Sobreira tem duplo “lugar de fala”: é perito em Gilberto Freyre e seguidor da religião mosaica, um marrano convicto, daqueles que decidem retomar o judaísmo ibérico ancestral, havendo, inclusive, formalizado sua conversão com o rabino Jacques Cukierkorn, de Kansas City.
Ressalte-se, adicionalmente, a honestidade intelectual do autor, ao reproduzir ipsis litteris os parágrafos mais comprometedores de Freyre, permitindo a dúvida entre os leitores, sem nunca abrir mão da tese que advoga. Permite, mesmo, que o leitor possa capturar a evolução de pensamento do sociólogo com o avançar dos anos.
Com efeito, as circunstâncias de um Freyre juvenil eram bastante diversas das de sua maturidade. E apesar de seu brilhantismo e experiência internacional, não se esperaria do rapaz uma visão de judaísmo que divergisse frontalmente do que lhe haviam repassado as elites agrárias e católicas de seu tempo. Em diversas linhas do que escreveu, apontava um judeu estereotipado, a figura do usurário, o estrangeiro espoliador, o cobrador impiedoso, aquele que, enfim, resistia no inconsciente dos senhores de engenho desde o período holandês em Pernambuco.
Gilberto herdara isso dos que lhe acercavam e levariam décadas para se afastar do perfil tosco que lhe haviam desenhado. Para a mudança, é bem provável que houvesse se abastecido de informações trazidas por seu primo mais jovem, José Antônio Gonçalves de Mello (1916-2002), autor de Gente da Nação, passando, deveras, a compreender melhor a presença e a multiplicidade do povo de Jacó no Nordeste brasileiro.
A antiga visão monolítica do judeu rico, comerciante e usurário, de perfil rapínico – para usar o neologismo de Caesar Sobreira –, cede lugar à possibilidade de considerar judeus pobres, lavradores, calceteiros, sapateiros, muitas vezes dedicados aos estudos, alguns deles se tornando médicos e cientistas, de habilidades as mais diversas, mas não aristocráticas, impedidos que foram, na Europa, de possuírem terras e títulos nobiliárquicos em paridade com os cristãos-velhos.
E se, na infância e juventude, Gilberto Freyre tivera pouco acesso ao universo factual judaico (cuja comunidade do século 20 estabelecera-se no bairro da Boa Vista), o sinhozinho de Apipucos, regado a mimos de velhas mães-pretas, conseguiria, a partir da década de setenta, privar da convivência de amigos israelitas em carne e osso, nem de longe portadores dos estigmas por ele descritos em Casa Grande & Senzala ou em Sobrados & Mocambos.
Gilberto Freyre, o jovem, convivia com os clássicos da literatura antissemita que circulavam no país, como Os Protocolos dos Sábios de Sião ou História Secreta do Brasil, este último de autoria de Gustavo Barroso, o integralista que chegara à presidência da Academia Brasileira de Letras em 1933, justo o ano de lançamento de Casa Grande & Senzala. Em contrapartida, no mesmo ano, a Editora Civilização Brasileira lançava a coletânea Por que Ser Antissemita? – livro em defesa do povo judeu, assinado por trinta e cinco autores da envergadura de Coelho Netto, Afrânio Peixoto, Humberto de Campos, Orígenes Lessa e Solidônio Leite Filho (o Brasil, contudo, somente teria um estudo sério sobre o assunto quatro décadas depois, em 1972, quando o pernambucano Vamberto Morais publica Pequena História do Antissemitismo, apontando as motivações religiosas como determinantes, não as étnicas ou econômicas).
Em um dos capítulos do novo livro de Caesar Sobreira, encontram-se algumas das críticas mais contundentes dirigidas a Gilberto Freyre no tocante à questão judaica. Uma delas foi apresentada pela historiadora Silvia Cortez Silva, em tese doutoral de 1995, inserindo Gilberto Freyre na da elite intelectual brasileira que, nos anos 30 e 40, “contribuiu para reforçar a imagem estereotipada do judeu no momento em que o antissemitismo ganhava espaço por toda a Europa”.
De fato, por tudo o que foi anteriormente comentado, não se pode afirmar que os primeiros e principais escritos de Gilberto Freyre foram simpáticos aos israelitas. Pelo contrário, descortina-se sua visão caricata, que tangencia personagens como o Shylock, de Shakespeare, em O Mercador de Veneza, ou Barabbas, de Marlowe, em O Rico Judeu de Malta, duas peças de teatro visivelmente antijudaicas.
Além disso, Giberto vale-se frequentemente da dicotomia “nós e eles”, sendo nós, os brasileiros, e eles, os judeus, isto é, o outro, o diferente, o estrangeiro. Tanto assim que utiliza o verbo “infiltrar-se” quando se refere à participação judaica na sociedade local. Abusa de expressões pejorativas, associando o israelita a “homens de negócios, dinheiro, ouro e prata, como nenhum outro”, “agiotas”, “usurários”, “de nariz aquilino”, “parasitas”, de “olhos, narizes e beiços clássicos do semita” ou “homens ruivos a engabelar mulatas”, nessa última citação constituindo uma de suas raras referências ao tipo asquenaze, diferente do sefárdico comumente abordado.
Analogamente, não é nada simpático mencionar os judeus no Brasil como “agiotas que parecem ter se dedicado ao mesmo tempo à importação de escravos para as plantações”. Uma assertiva correta, mas que, decerto, poderia ter sido complementa informando que essas funções eram igualmente praticadas no Atlântico Sul por católicos portugueses e calvinistas holandeses.
O ápice do que aqui está sendo definido, não como antissemitismo, mas como uma visão monolítica e estereotipada, para não dizer preconceituosa, dos primeiros anos de Gilberto escritor, acontece quando ele atribui a (suposta) aversão do povo português aos judeus como decorrência da “presença irritante de uma poderosa máquina de sucção operando sobre a maioria do povo, em proveito não só da minoria israelita como dos grandes problemas plutocráticos” (sic).
Este é o Gilberto Freyre polêmico e contraditório consigo mesmo. De um lado, criador de arquétipos falseáveis; de outro, amante da miscigenação e do multiculturalismo, de mente aberta e permeável, afeito, portanto, a mudar seu próprio pensamento.
Anos após sua morte, quando se desenvolveram as técnicas de pesquisa de genoma e rastreamento genético nos anos 2000, utilizando-se amostras salivares de seus filhos e netos, noticia-se que Gilberto Freyre possuía substancial herança de judeus portugueses. Ele iria gostar de saber disso, não se duvide.
Caesar Sobreira está de parabéns pela novo livro, que abre caminho para inéditas revisões da obra freyreana.
[1] A animosidade dos paulistas já vinha de antes, da época em que Gilberto Freyre criara o Movimento Regionalista de 1926, confrontando-se ao modernismo importado da Europa lançado na Semana de Arte Moderna de 1922.
Jacques Ribemboim nasceu em 1960 no Recife. Crescido em meio à comunidade judaica local, estudou no Colégio Israelita Moysés Chvarts. Nos anos 1980, residiu em Israel, trabalhando como voluntário agrícola no kibutz Maabarot. Entre 2006 e 2010, presidiu a Synagoga Israelita do Recife. É autor de centenas de artigos e ensaios, com 21 livros publicados abordando temas de judaísmo, política, economia, história e meio ambiente. Graduado em Engenharia Mecânica e Economia, tem mestrado em Economia Ambiental pela Universidade de Londres e doutorado em Economia pela UFPE. É membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.