Guerra sem Testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social chega às livrarias 50 anos depois da última tiragem deste clássico da literatura brasileira.

“Poucas, sabe-se, as possibilidades de alcançarmos, neste ofício, a recompensa de um livro duradouro. Por mais que cerremos o espírito aos desvios, destinam-se os escritos literários, em grande maioria, a existência curta: 80% desaparecem em um ano, 99% em vinte anos. Um massacre onde poucos sobrevivem”, escreveu Osman Lins em Guerra sem Testemunhas.
No centenário de nascimento de Osman Lins (1924-1978) duas editoras públicas, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e da Editora da Universidade Federal de Pernambuco, se unem para resgatar e lançar lançar a terceira edição de Guerra sem Testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social, depois de 50 anos da última tiragem, em 1974. O título é um ensaio profundo, irônico e ousado, com recursos do campo da ficção, sobre o ofício de escrever e a relação do escritor (e da escrita) com o mundo – dos editores e leitores aos censores. Produzido no fim da década de 1960, e atualmente uma raridade, o título tem evento de lançamento na sexta-feira (24/01), às 19h30, no Museu do Estado de Pernambuco, nas Graças, Zona Norte do Recife.
“Quando a obra foi publicada, 50 anos atrás, a gente já vivia uma ditadura”, lembra Fábio Andrade, professor no Departamento de Letras da UFPE e organizador do livro. “Foi publicada em 1969, e teve uma boa repercussão, com artigos no Rio, em Recife. Vários lançamentos, inclusive Osman vem a Recife pra lançar, mas me parece que a repercussão dele poderia ter sido maior, se não houvesse justamente esse clima, extremamente duro, de perseguições, de terror. A última edição, a segunda, foi em 1974, foram cinco anos entre a primeira e a segunda, e cinquenta entre a segunda e a terceira. Eu e os editores, todo mundo envolvido nesse projeto, reconheceu muito cedo a capacidade de ele alcançar um público leitor mais amplo. Isso se deve a uma série de fatores, e um deles, eu acho, é o fato de que Osman, ao longo dos ensaios dele, sempre tentou construir uma linguagem muito dele, muito própria, abrindo mão do jargão teórico, crítico. O interesse dele sempre foi, de algum modo, falar da maneira mais clara possível sobre todos os aspectos que envolviam a criação literária e a maneira como ele mesmo vê a literatura e o papel dela no mundo e na sociedade. Então, essa linguagem muito bem trabalhada, muito bem cuidada, mas despojada de jargões, de uma linguagem inacessível que provém do âmbito da teoria e da relíquia literária.”

No livro, Osman Lins faz a defesa da escrita como ofício: “O profissional é aquele que professa – e professar, mais do que exercer, é abraçar, seguir. A ideia, portanto, deve envolver uma noção de entrega, de responsabilidade e de fé.” Traz reflexões sobre o trabalho criativo, a crítica literária, a circulação de livros, os leitores, o mercado editorial, as dificuldades para publicação de livros, a demora na análise de originais por parte das editoras e os espaços na mídia. Também reage à remuneração do escritor baseada no número de livros vendidos e não pela quantidade de exemplares impressos, e à falta de republicação de obras esgotadas de autores novatos.
“Lembro-me de um fato corriqueiro que muito o irritava, quando viajávamos juntos,” recorda a jornalista Letícia Lins, filha do autor. “A cada hotel, a pergunta na recepção. Profissão? ‘Escritor’, ele respondia. Porém o funcionário de plantão sempre indagava: ‘Como? Profissão?’. E ele, irritadíssimo, ratificava quase soletrando: ‘es-cri-tor’. Isso acontecia até mesmo no exterior”
“Eu acho que nesse livro, em particular, que na verdade é um livro de ensaio que mistura crítica, articulismo, jornalismo, ele tenta abordar o literário a partir do ponto de vista do ofício do escritor”, contextualiza Eduardo César Maia, professor da UFPE. “Ele faz um tipo de reflexão sobre o lugar do escritor na sociedade, o que é o ofício do escritor, sem idealismos, sem uma noção de inspiração idealizada divina. É um tipo de contato material com a realidade do literário, muito pragmática, muito focada no papel social do escritor, e sem abdicar nunca das questões estéticas. Para mim, é um dos lançamentos mais interessantes do ano que começa, eu já coloco entre as coisas mais importantes.”
Com 332 páginas e capa de Ildembergue Leite, a nova edição tem uma pequena iconografia (imagens em P&B), que remete ao período de elaboração do livro e à sua repercussão, e um índice onomástico com pensadores, escritores e artistas citados pelo autor. “Nesta terceira edição, com notas e nova apresentação, a Cepe Editora e a Editora UFPE se unem para trazer de volta às prateleiras um título que estava se tornando uma raridade, e que merece novas e renovadas leituras”, afirma o jornalista e editor da Cepe, Diogo Guedes.
Osman Lins é autor de romances (Avalovara, O Visitante, O Fiel e a Pedra), contos (Os Gestos), narrativas (Nove, Novena), relatos de viagem (Marinheiro de Primeira Viagem), obra para teatro (Lisbela e o Prisioneiro) e ensaios. Nascido em Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco, Osman Lins morreu precocemente, na cidade de São Paulo, em 8 de julho, três dias depois de completar 54 anos.
“Fui apresentado a Osman Lins durante meu curso de graduação em Letras, pelo professor Lourival Holanda”, conta Andrade. “O primeiro texto que li foi o conto ‘O pássaro transparente’, de Nove, Novena. Fiquei impactado pela maneira como a narrativa foi construída. E é uma referência até hoje, para a minha própria ficção. Na sequência, li o Avalovara, que se tornou um livro fundamental para mim, tanto que o estudei no meu mestrado. E nessa época, li toda a obra de Lins. Atualmente, estou muito interessado no que se convencionou chamar de primeira fase de sua ficção, constituída pelo livro de contos Os gestos, e pelos romances O Visitante e O fiel e a pedra. Um grande escritor é sempre um continente a ser redescoberto.”
“Talvez Guerra sem testemunhas seja sua obra que mais tenha a dizer sobre a nossa própria época, ou seja, que construa um diálogo mais estreito e mais expressivo com a nossa própria época”, justifica Andrade. “É uma obra que dialoga muito com nossa época. Tanto no aspecto estrutural do texto, pela mistura de gêneros – ensaio, testemunho, relato, ficção – como pela atualidade dos problemas que ela aborda. Por exemplo, quando Osman Lins analisa a censura, desenvolve uma reflexão contundente sobre o seu significado. Atualmente, temos visto atos de censura direcionados para certas obras da literatura brasileira contemporânea… e nesse sentido, o ponto de vista de Osman Lins é certeiro: o habitat natural da experiência artística é a liberdade.”
“Em Guerra sem Testemunhas, há questionamentos que ele fez que ocorrem, ainda com mais intensidade, no século 21. Naqueles tempos, em que nem se sonhava com Internet, ele questionava: ‘Caminha o livro para a extinção ou está mais vivo do que nunca’? Tem pergunta mais atual? Também analisa o papel da Literatura frente às comunicações de massa e à realidade política. Tem discussão mais necessária hoje do que essa?”, indaga Letícia Lins.
Título: Guerra sem Testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social, 3ª Edição
Autor: Osman Lins
Organizador: Fábio Andrade
Editora: Cepe / UFPE
Páginas: 332