Para quem faz livro e
Para quem gosta de ler

Luciana Gerbovic escreve sobre “O ninho”, livro de Bethânia Pires Amaro

Os nossos ninhos


Por Luciana Gerbovic

Sim, a Terra continua a dar sua volta em torno do Sol, nada muda só porque nosso calendário convencionado passou de um ano para outro, mas ô sensação boa essa, de que podemos começar de novo com data marcada. E começar melhores. Chegar o mais perto possível daquilo que gostaríamos de ser. 

Todas as nossas (ops, só posso falar por mim)… todas as minhas ações nesse início de ano ganham esse encantamento do rito de passagem. As refeições, o cafezinho, o encontro com quem amamos, a lista de tarefas, uma agenda nova, o olhar para a cidade onde moro, as pequenezas do dia com a presença exigida pela meditação. 

Para quem (eu) não vive sem a literatura, a escolha do primeiro livro do ano não escapa desse ritual de encantamento com as pequenezas (que, preciso dizer?, não são pequenas). Pois foi nesse estado que abri o livro de contos, “O ninho”, da Bethânia Pires Amaro (Record), no dia primeiro de janeiro de 2025. Para ler um ou dois contos. Tolinha. Mas, péra: a minha história com esse livro começa antes.

Em dezembro de 2024 fui até a Livraria da Tarde (no bairro de Pinheiros, em São Paulo), como costumo fazer pelo menos uma vez por mês. Já quase na hora de ir embora, a Zil, livreira até a medula, me perguntou se eu já tinha lido esse livro. Bom título, gostei da capa, Prêmio Sesc de Literatura 2023 e Prêmio Jabuti 2024 (este estava fresquinho). Na contracapa, Giovana Madalosso afirmando que “compará-la a contistas como Raymond Carver seria justo, mas limitaria sua obra.” Raymond Carver? Caramba! E eu nunca tinha ouvido falar da autora, minha colega no Direito (estava lá na orelha). 

Menos de uma semana depois fui participar de um congresso de educação, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, e a pessoa que me convidou me puxou pela mão, pois queria muito me apresentar a uma dupla colega, advogada e escritora. E lá estava eu, ligando a pessoa ao nome na capa do livro e dizendo que estava com “O ninho” em casa, ansiosa para ler. Bethânia tão simpática e afetuosa. Conhecê-la me deu mais vontade de ler o que ela escreveu. Resolvi colocá-lo na mala para as férias de fim de ano. 

E volto para o dia primeiro de janeiro, achando que leria apenas um ou dois contos, afinal havia tanto nada para fazer naqueles dias, vou conhecer só um pouco desse ninho premiado construído pela Bethânia, foi o que pensei (fazer nada é tão importante). Mas não teve jeito, fui fisgada na página 9 já (vai lá ver), tive que ir até o fim do último conto. Sssshhhh, ninguém fale comigo, me fechei no quarto. Saí quando não tinha mais páginas para ler. 

Madalosso escreveu que “Bethânia revela, com coragem, a disfuncionalidade dos ninhos familiares.” Com ritmo a favor do que se conta, com criatividade, sem explicações (a autora confia em quem lê) e sem clichês (a autora respeita quem lê), me senti olhando pelo buraco da fechadura de várias casas, chegando em lugares tão íntimos desses personagens (e meus, afinal, a boa literatura coloca no espelho aquilo que tentamos esconder de nós mesmos) que cheguei a ter desconforto físico. Concordo com a Giovana: Bethânia escreve com coragem. O que me exigiu coragem para ler. Do jeito que eu gosto. 

Enfim, fica aqui o convite para essa leitura. E o desejo de que seja assim o nosso 2025: repleto de histórias escritas, lidas e vividas com coragem. 


Luciana Gerbovic (@leituraslucianagerbovic) é escritora, mediadora de leitura e sócia-diretora da Escrevedeira

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